28 de outubro de 2011

As vezes o tempo quer parar
mas não consegue
então as pessoas saem anônimas
de dentro dele
muito João que ninguém pranteia
muita Maria que não fez milagre
e a gente vai passando assim
com uma falta de não se sabe o quê
até que faltamos por completo

entre todos os Zequinhas do mundo
hoje perdemos o nosso
não nos conhecíamos muito bem
mas nossas vitalidades conversavam
no quiosque do bloco um
casualmente tomando café
nos dias de revolta e de brandura

entre todos os Zequinhas do mundo
hoje nos cabe um vazio estúpido
que nos faz pensar no que nos espera
e na dor dos que amava
que é a nossa também

descanse companheiro jornalista
hoje,infelizmente, você é a notícia.

25 de outubro de 2011

Ela ficava embaixo do tapete
Todo esse tempo e ele não sabia
Ela esperava a poesia
Que falasse do amor na poeira
Mas ele temia a ladeira de encantos
Que subia de joelhos
Para tê-la
Ele se achava poeta
E nela o gosto era de poesia
E o cheiro da maresia
Invadia rosto e jardins
Quando ela se fazia
Enchente ou vazante
Afundando navio e navegante
No errante de Sy

22 de outubro de 2011

no meio do caminho
tinha uma pessoa
tinha a mesma pessoa
no meio do caminho
impassível
inamovível
incontornável
no meio do caminho
tinha essa pessoa

nunca me esqueço
de como fiquei cansado
no meio da pessoa
tinha um caminho

21 de outubro de 2011

Quando o desgosto dos teus olhos
me atravessa a garganta
me dá uma sede tanta
que não consigo imaginar o que seria
quando queríamos

meus papilos arrepiados
percebem aos poucos
uma mescla indigesta
das dimensões que inventamos
brincando com o sabor do mundo

É como se as areias
saltassem da tela
fizessem de mim seu shake
e fossemos somente o desertor
e o deserto
mediados por um camelo de sons
de um bolero à Ravel

Isso quando o desgosto
dos teus olhos em caravana
não Azevedam de vez
e cerram
embalando os meus

16 de outubro de 2011

Agora sei que o amor
Mesmo quando o afogamos
Num vaso imundo de botequim
Sobrevive de letra de música ruim
E da perversão da memória


Mas isso não pode ser tudo
Deve haver estampado
em algum tecido vermelho
um diabinho tão bom quanto cupido
que anule a fatalidade do fado

15 de outubro de 2011

Não quero o pretexto
Quero a textura em todo o rudimento
Não quero o lamento
Quero a agrura em todo seu contexto
Não quero a formosura
Quero viver o que és por dentro

9 de outubro de 2011

Quando eu comecei a odiar meu amor
Ele ainda era seu
E tudo parecia rodar e ficar mais complicado
Cada vez que eu imaginava
Que podia terminar de repente

Nessa época eu não sabia ainda
A força escura que havia na solidão

1 de outubro de 2011

Me alimentei primeiro dos teus ombros
E do peso que eles carregavam fiz meu lastro
Assim como dos teus cabelos
Fiz as rédeas dos meus sonhos
Não sei direito quem era o bandido
Nem quantas balas disparamos um no outro
Mas os episódios se sucediam
E vivos nos completávamos
Cada qual com o defeito alheio
Até que veio a perfeição
E nos julgou depois quebrou ao meio

24 de setembro de 2011

Já mordi tua ausência
de fazer sangrar a gengiva
mas não pude manter viva
a minha solidão

23 de setembro de 2011

como se a noite fosse desculpa
ela se descascou da memória
e foi roçando de par em bar
a pele da desconfiança
no veludo dos sussurros
até que só restasse
no copo dos seios
um desejo de explosão e morte
típico dos que vão rebrotar

5 de setembro de 2011

hoje é como se ontem fosse
e não houvesse nada a cogitar
hoje não tenho navios piratas
nem novas sonatas a inventar

algo deu errado no botão de emergência
e o tempo continuou rolando
como se esta fosse a sua essência

1 de setembro de 2011

é...

É na poesia que sigo teus passos
E com ela me torno mais palavra
Menos honra e penso e existo
Como se o logo fosse anormal
E o agora não importasse a ninguém

É na poesia que sou menos conseqüente
E consequentemente me sinto todo
Como se sente alguém que se pertence
Pertencendo a outrem

É na poesia que me sinto mais amargo
E me reprovo a todo instante
Para saber se meu gosto pode variar
De acordo com a presença alheia

É na poesia que não durmo de noite
Esperando que me venham buscar
Numa ambivalência cuja sirene
Fique gravada para sempre nos ouvidos
Daqueles que têm certezas

22 de agosto de 2011

Tanto nos cutucamos
eu e você
que nosso glacê
parece a face da lua cheia
aparente ceia de amantes
mas na prática
virtualmente distantes

15 de agosto de 2011

Tenho um telefone novo
Um carro quase novo
E uma solidão recente
Que não me telefona
Não sei se sou cafona
Mas esperava flores
E doces promessas de decepção
Acho que sou meio Pucca
E por isso ninguém me cutuca

1 de agosto de 2011

Sim, fui ingênuo sim
E achava que teus seios
Eram apenas fonte devida
aí li teu chapeuzinho vermelho
E nem mesmo o róseo
Das delicadas auréolas
Me impediu de uivar

20 de julho de 2011

O zumbido anunciava a primavera

Estacou na paisagem exuberante
Destacou delicadamente
Uma flor do canteiro
Colocou-a na cabeça
E saiu pensando que aquilo finalmente
ocuparia as abelhas do seu cérebro

13 de julho de 2011

Tha Clown!

O sistema inclinou
O sistema parou
O sistema os cilou
O sistema caiu
E eu
Riu
Riu
Riu

5 de julho de 2011

Da primeira vez que me vi
mais novo que meu filho
ele tinha seis anos e sério
dizia que aquele meu sorriso
não era digno de sua idade

Da segunda vez ele sorria
um pouco irônico revelando
sem me dizer que meus temores
eram passados e que sua experiência
era maior e mais forte que tudo isso

da terceira foi quando percebi
que ele não imaginava nem de longe
as loucuras que já tínhamos feito
sua mãe e eu no tempo em que juntos
começamos a ensaiar sua concepção

4 de julho de 2011

não nasci em Itabira
mas bem que gostava
de ter as casas me olhando
as portas alinhadinhas
e aquele ar interiorano
de quem come o pão
fresquinho bem cedo
com a manteiga derretida
escorrendo pela memória

não nasci em Itabira
mas se tivesse nascido
não me importava de me dar
de vez em quando
uma agonia imensa
de ser o mundo tao grande
e eu tão desajeitado

não certamente não nasci
na férrea Itabira de sonhos
que só vi nos postais do poeta
mas ainda que tenha vindo
da maravilha das cidades gostaria
de pedir por precaução
a todos os deuses da glória
que me dessem um cantinho
nesse negócio de história

28 de junho de 2011

Promíscuo o sol
nasce pra todos
esfrega-se em todos
tudo saboreando
com seu apetite abrasador

Promíscuo penetra na pele
marcando com tons escravos
todos que dele se servem
todos que nele labutam
de si em si

promíscuo desnuda corpos
molhando
lambendo
ofendendo
até o que se oculta nos panos

promíscuo é o sol
e com um rei assim
como podem seus súditos
pensar em algo mais
que não a noite?

17 de junho de 2011

com circunstância
introduzia sonhos
nos ocos da solidão

1 de junho de 2011

Thalion

Faz vinte anos hoje
que me apaixonei
por um garoto

e para nós projetei mundos e fundo

faz vinte anos hoje
que temo sua impetuosidade
diante do desconhecido

e quis uma redoma grande e confortável

faz vinte anos hoje
que quebrei minhas pernas
para caminhar a sua altura

e que não pude acompanhá-lo o tempo todo

faz vinte anos hoje
que aquela mão delicada e já potente
me fez olhar pra frente

e temer e amar o que viria de todo modo

Faz vinte anos hoje
que o mar invadiu meus olhos
me fez ver que era possível morrer afogado

em mim mesmo e no que de mim tinha saído

Faz vinte anos hoje
e que faça mais cem, talhados em pedra e limo
Thalion (de Tolkien), dos fortes, o forte

aquilo que projetei e que disso é diferente.

31 de maio de 2011

são tantos amarelos
tantos elos estranhos
castanhos e rosas
e prosas na calçada
na estrada multicor
tanta flor-parede
tanta rede de tintas
tantas pintas na paisagem
que a vi(s)agem se alegra
e toda regra é quebrada
Cada fada parece ter nascido
Neste lugar colorido
a lápis de cor
neste paraíso carnavalizado
deste lado da tela
aqui na Venezuela.

23 de maio de 2011

Já me fiz assim
pedaço de mim mesmo em desagravo
um cravo cravado no rosa dos teus conceitos
dois peitos deleite na boca da noite
e a vontade de xingar o mundo azul
de amarelo vômito e entranhas lavadas
Assim eu fiz assunto
um conjunto de rimas
e sons que saem perversos da carne
em disparada nos ouvidos do microfone
Já fiz do corpo na voz da joplin
o meu escravo mais fiel
e masturbei o lirismo com amores extáticos
Mas não me prendi ao gosto
bom que tu tens na vida
só percebi um pouco tarde
que tudo arde de viver

16 de maio de 2011

Nossos cios
são cicios
Nossos ossos
são destroços
nossos rumos
são aprumos
nossas ganas
são insanas
nossos traços
são em laços
nossos medos
são enredos
nossa cura
é a mistura

3 de maio de 2011

Já são quase seis
E ela parada
Imóvel como um buriti
Observa o vento caminhar
Sobre as águas
Não há mais brasa
No cigarro e mesmo assim
Sua apagada companhia
É palpável e necessária
Imprudente com a outra mão
empunha uma fotografia
Que parece ser de alguém
Meio apagado em tons de cinza
Sua boca entreaberta parece
repetir algum poema sem sonoridade
há cinco cães sentados ao seu redor
como a vigiá-la,
salvaguardando a sua dor
do sexto só se vê a cauda
parece vigiar a rua
quase entrando na moldura.

27 de abril de 2011

De terça em diante
Não serei mais o gigante
Que não soube ser
Nem quero mais saber
Das possibilidades que não tive
Nem da gente que não vive
Em minha vida
Quero saber da partida
Do trem pra um lugar distante
E quero bastante
Espaço nele pois estou só com meus fantasmas
E tenho crises e asmas
Só de pensar em viajar espremido
Na companhia de grupo tão desmedido

26 de abril de 2011

tensão

na beira do rio
brincavam crianças

o homem olhou um átimo
as gotas espalhadas na cena mormacenta
a enormidade de borboletas amarelas
manchando a tela em torvelinho

antes de adormecer
fechou os olhos e disse

ainda é possível ser Alice

25 de abril de 2011

Tenho um amigo que vive na fronteira
e no mundo que ele defende
não há plenitudes iluminadas
mas os plenilúnios são silvestres

Tenho um amigo na fronteira
entre o trágico auto-exílio
e etílicas lembranças

tenho um amigo de fronteiras
e além dele não vejo
melhores limites para o humano

tenho um amigo
e fronteiras
meus limites ampliados

tenho um amigo
no front

viver é a batalha.

11 de abril de 2011

FLERTE II ( BELLA x MIBIELLI)

Consumo
essa voraz
agonia

Presumo
sentir extático
poesia

Qualquer que seja
teu desejo
sou tua escrava
pitonisa

Postado por Bella http://isabella-coutinho.blogspot.com/ em 03/04




Tua escravidão é o que me mantém de pé
Teu fluir pelos cantos,
arrastando correntes
tuas frases gementes
todos os latentes modos de dizer
aprisiona-me que quero a liberdade de pertencer

tua escravidão é o que mantêm
toda a liquidez do lânguido escorrendo
de todo canto que possa alcançar
com gestos bruscos e qualquer brinquedo
sibilante ou não
submarino ou não
que se sinta bem no seu templo
e te faça vibrar como não faz a razão

tua escravidão é o que
me tem feito ainda mais consciente
do que pra mim é o chicote
do teu sentir
prazer
dor
me deixando
cada vez mais servo
da tua escravidão

Publicado por MIbielli em 05/04/2011

1 de abril de 2011

flerte (Elimacuxi x Mibielli)

quantos olhos
agora ouvem
o silêncio
de meus olhos?

postado por Elimacuxi às 17:04 em 16/03/2011


Os mamilos dos teus olhos
provocam e brincam
de esconder e mostrar
com os dentes do meu olhar

Postado por Roberto Mibielli em 30 de março de 2011 17:35


deixou-se na cama
prostrada de dor
os mamilos roubados
o seio em flor

noutro dia
ali brotara
poesia
de pétala rara

postado por Elimacuxi às 17:04, 31 de março de 2011 07:22


Porque na cama deixou-se star
a Stela Dalva no teu olhar
clave de lua dos seios fez
e dos mamilos insensa tez

Postado por Roberto Mibielli em 31 de março de 2011 14:17

30 de março de 2011

Os mamilos dos teus olhos
provocam e brincam
de esconder e mostrar
com os dentes do meu olhar

a pedidos

quando a mulher de vinte e cinco
viu as uvas
as luvas
já não tinha
a vinha estava tomada
e cada copo
um corpo diferente forma criava
quando a mulher de vinte e cinco
achou as luvas
as uvas já não tinha
só o esqueleto do cacho
quedava no prato desnorteado

23 de março de 2011

Dora morreu Dorinha
não foi culpa do carro
nem deu tempo de saber
quem tinha errado
ela corria – o lanche na mão –
raridade numa manhã cinzenta
o motorista só pensava
no dia enfadonho de trabalho
e viu um sorriso lindo
subindo no parabrisa
até quebrá-lo.
Dora morreu
Dorinha.

21 de fevereiro de 2011

Meu nome de guerra
É passarinho
Meu nome de paz
Já não lembro mais

15 de fevereiro de 2011

Hoje quero me sentir mulher
Porque estou desesperadamente
Apaixonado por uma
Que nem sabe
E sinto sua falta
Mesmo sem tê-la
E quero vestir-me dela
Para poder despi-la
Em meus braços
Diante do espelho
Hoje quero me fazer mulher
E quando de noite estivermos sós
A solidão não ocupará seu lugar
Na cama. Nem haverá motivos
Para que eu me sinta inquieto
Porque seremos dois estranhos
Cujas estranhezas já se conhecem
Hoje quero me descobrir mulher
Para perceber minhas bordas
Sonhando com bordéis
Que não freqüentaria
E me fazer vadia
Sem que ninguém saiba
Nem mesmo eu desconfie
De que sou assim
No estranho desejo
De quem me ama

7 de fevereiro de 2011

Precisava ser ensinado
E ter o seio da orelha puxado
Por dedos rígidos na disciplina
E beliscões em trilha ferina
Que mostrassem a silha
Do bem e a maravilha
Do som que faz o chicote
Nas raias do esporte
De amar ao próximo
E ao seguinte ótimo
Tapa deveria oferecer
A capacidade de manter
As duas faces sorrindo
Quando o escuro
se aproximando
Fosse dominando
O paladar
E o perfume do ar
Já não fosse outro
Além do antro
E o incômodo
Da coleira
Fosse besteira
De quem precisa ser ensinado
Pra deixar de ser o menino levado

3 de fevereiro de 2011

Variações sobre o mesmo tema

Malsinada sina
Teu sino
Não me ensina.

23 de janeiro de 2011

National geographic

A constância do rio
É roer as margens sem cautela
Açoreando o próprio leito

21 de janeiro de 2011

E poderia
amá-la
por rios
a fio
Mas ela
preferia
pavios
Malsinada sina
Teu sino
Não me toca.

12 de janeiro de 2011

Quando a mulher que amo
Completar os cinqüenta
Vamos ter um orgasmo de limo
Recheado de pedras
E seremos eternos em tudo
Menos na eternidade
Quando a mulher que amo
Completar os cinqüenta
Nos reconciliaremos
E seremos um só
Procurando o outro
Quando a mulher que amo
Completar os cinqüenta
Talvez eu consiga ser
O qüinquagésimo
primeiro

8 de janeiro de 2011

Um peito pleno de tonturas
Erguia nas alturas
Sua erétil personalidade
Quando de passagem
E sem frescuras
Uma grande boca
torta de vícios
Lhe perguntou
Onde vais essa sexta
Chapeuzinho?

22 de dezembro de 2010

Ela estava ali
Viva
Parada com uma samambaia emoldurando
Meio mona
Meio lisa
O olhar embutido no mistério
Do sorriso quase casto
e gasto pelo desejo
dela dos outros dos votos
e lampejos
era quase abjeto
O sorrir dentro daquele quase sorriso
Como se ninguém mais soubesse
A sensualidade que há
Na ausência de insinuações
Na atitude reta
De quem não pode ser injuriada
Apertada
Surrada
Perdida
eternamente
No olhar do fotógrafo

15 de dezembro de 2010

Poema de sete fauces

quando nasci um anjo torta
desses que vivem nas sobras
disse vai roberto
ser gordo na vida

11 de dezembro de 2010

O tempo rouge
Nas faces do desespero
Esperar a prima vera
Como se as verdades iniciais
Se ocultassem nas saias
E no cheiro da flor
Que ela traz escravizado

O tempo rouge
Moulin de lembranças
E versos travessos
Ocultar-se no escuro
Ainda que de aluguel
E dormir o sono justo
Do paraíso recuperado

O tempo rouge
Vermelho maquiado de sons
As batalhas se sucedendo
Aos fatos embaralhados
Não há gigabites suficientes
Para trágicas memórias
O tempo agora é pardo

O tempo ruge
Nas faces do poeta
Nem semelhantes nem
Estranhos caminham ao redor
Só febre e uma pandora doce
Entoando cânticos nefastos
Todo o amor é tardo

23 de novembro de 2010

senti teu cheiro
no ar
enchi os pulmões
mas fui obrigado
a te soltar

19 de novembro de 2010

cansei de escrever poesia insinuante
agora escrevo em linha ereta

17 de novembro de 2010

As coisas não sabem
O que fazem
Mas nem por isso devem ser perdoadas
Devem ser impiedosamente usadas
Como coisas

16 de novembro de 2010

tenho que estar em você
como as coisas estão
num quarto de brinquedos
disponível
mas perdido

28 de setembro de 2010

não me deixe mais
falar do teu corpo
nem do teu gosto nem
da minha voz te procurando
em busca de nomes
e eco
Ao contrário me faça calar
castigando a boca
com o impossível de te percorrer
por dentro

8 de setembro de 2010

O bem e o mal se reconciliaram
Dentro de mim
E para celebrar
Fizemos um ménage-a-trois

6 de setembro de 2010

Tenho um diabo dentro de mim
E esse diabo tem um nome
De mulher tatuado num pedaço
Obsceno e gasto do corpo

As coisas que ele sonha e realiza
São coisas que suprimo e tento
Sublimar com álcool e cortinas de fumaça
Ou despacho numa esquina

Tenho um diabo dentro de mim
Nesse corpo que o tempo
Começa a esquecer nas dobras
Amolecidas dos relógios de Dali

E as coisas que reitero de sua prática
São fatos históricos em Gomorra
E heróicas narrativas de cafajeste
Que os netos ouvirão com descrença e fastio

Tenho um diabo burguês dentro de mim
E com seiscentos milhões de quiabos
Acho que ele está construindo
Um duplex na minha barriga

2 de setembro de 2010

Quase todo dia
Penso no tempo que perdi
Para fazer quarenta e cinco anos

23 de agosto de 2010

Quero escrever algo torpe
Algo feio
Que lembre bem o meio
Da feiúra
Como um miúra espetado
Contorcido arremetendo
Um poço de desejos
Que transborda e mata
De pequenas e grandes mortes
Ou uma paródia de verso
De Glauco Mattoso

Quem sabe se consigo ser
Perfeituoso
E inscrevo o amor é uma dor
Que faz sorrir latindo
O motorista de um fuscão
Aproveito o embalo e engato
O meu Iaiá
No seu ioiô

E meu avô
Torcendo os dentes
Na cova
Sova cada pedaço do caixão.

19 de agosto de 2010

Notei que você
Não me permite mais pensar
Notei que você
Mudou o cabelo e a boca
Agora está desenhada
Num lugar meu absurdo
Notei que você e eu
Não compreendemos um ao outro
Nem precisamos
Notei que você deixa a roupa atirada
E isso longe de incomodar
Perfuma o mundo
Notei que você não diz
O que eu queria ouvir
Nem me ama desmesuradamente
Notei que você e eu
Precisamos acertar os ponteiros
A todo momento e nas mais diferentes situações
Notei que você gosta das horas
Longas mas não dispensa as brevidades
Notei que as cidades ganham corpo
Quando você as possui
Notei que você sempre esteve
Onde eu precisava estar com você
Notei que você e eu
Em cada sorriso e lugar
Já nem precisamos nos notar

16 de agosto de 2010

Esperar nos arcos da lapa
O tapa
da realidade
Nas costas (nuas) da cidade.
Penetrar cada abertura
Como quem costura
Um destino ébrio
Às calçadas da boemia
Fingir que é dia
De pular do bonde
Indo verticalmente onde
o destino for mesmo
que pra todo encanto
Seja preciso esquecer
Que você,
embora sazonal,
Ainda é normal.

26 de julho de 2010

Quero me esvaziar do mundo
Não parem
Não quero descer
Quero apenas o vazio
Da fome
Do frio
Da escuridão sem nada
Mas quero continuar girando
Em rotação e translação
Como todos
Não quero a cegueira
Que já seria algo
Nem folgo em dizer
Que gostaria de me saber existindo
Queria apenas um lindo
Esquecimento
Um momento
De não saber coisa nenhuma
Apenas a bruma
Do desconhecimento e da ausência

14 de julho de 2010

O que me importa se
sou mulher quando seduzo
e homem quando possuo
a minha natureza é torta
e vivo de sofrer transformações

13 de julho de 2010

abater um dedo com
a rosa Os espinhos
São internos
Que tem demais

Em pedir direito
A gente preda
a mão pedindo
porque não o lindo

A boca do leão
Entrega-se à noite
Dos teus traços
Meu copo denota

o teu perfume
entender finamente
a razão da existência
O universo é penetrável

12 de julho de 2010

Adoto um poema

Pode ser branco preto
Mesclado amarelo
Indigenista ou não
Pode não ter cabelo
Pode até ser um apelo
Aos sentimentos mais maternais
Não consigo conceber o verso
Que me arrebenta a garganta
E preciso experimentar
Porque o relógio biológico
Exige que eu tenha
Um poema meu
Dado
Vendido
Contrabandeado
Se for o caso
Não precisa ter rimas azuis
Nem ritmos encaracolados
Pode ser qualquer um
Ter pedras ou vir de paragens distantes
Onde as prostitutas e as palmeiras
São amigas bonitas e andam de bicicleta
Pode ter o olhinho puxado
E ser mirrado
Como um haiku

Adoto um poema
Que precise de pai

8 de julho de 2010

Um poema de pé quebrado
Pousou torto
Nos meus umbrais

Na hora não dei nota
Do ocorrido
Mas sentindo condoído
E achando que domesticaria
Dei água
Comida
Afeto e limpei
Seu ferimento
De aspas ponto
E artigo indefinido

O alimento não era apropriado
O afeto o fazia contra-ír-se todo
E o poema morreu
Entalado na garganta

Na hora a dor nem foi tanta
Nem sequer tínhamos recém nos conhecido

Mas a doença do pé destruído
Era contagiosa
E o poema no céu de não mais
Deste meu mundo

Virou prosa

4 de julho de 2010

Não filha
Nem sempre é sempre
Não
As vezes é sim
Ou talvez

Tem vez que a gente
Nem sabe o que fez
Mas acaba sendo

O mundo é gira
E a gente não sente
Muito quando
Incorpora
O agora

As vezes somos
O que já foram
Antes de nós
Conosco

Em outras polvilhamos
O mundo de idéias
E fatos que se renotam

Mas acertamos sempre
Ainda que em errar
Judeando a sorte

Não filha
Nem sempre é sempre
Sim
Ou não
As vezes é a vez
De estar lá

Ou já era

26 de junho de 2010

Estou
Pouco a pouco
Me tornando
Meu próprio
Mal necessário

22 de junho de 2010

Pro dia nascer feliz

Sigo sendo um poeta na noite descalibrada
Não me leve a nada
Nem me pergunte o que
Eu nem ligo
Poetas são carências marginais
E antes mais
Que novamente
Sigo sendo poeta em dias de cavalgada
Não me leve a cada
Cocho do teu ser
Eu nem fico
Poetas são um tormento fugaz
E antes ais
Que continuamente.

21 de junho de 2010

Rasgar com os dentes
O plástico
--------A plástica
-------------A plasticidade do ato
Continuar resoluto rompendo a madrugada
----------------------------------Até a saciedade

19 de junho de 2010

PÔ, ÉTICA???

Apressem os sentidos
Apreendam a razão
Não há motivos
Nem solução
Que não tenham sido tentados
Nem tentação demais
Nos descalabros
Derrubem os candelabros
Não há mais luz
De velas
Nosso romantismo corresponde
A um sentimento
Inócuo de prazer estético
E é patético pensar
Em formas
quando os sentidos
Estão melados de originalidades
É sempre meia verdade
Uma revolução poética
Tentemos então o absoluto
Do ventre livre
E aliterações
Pensemos em ações
Entre bons amigos
Façamos dos umbigos
A nostalgia dos oito
Sentidos
o poético
o psico-ético
o sócio-histórico
e os outros cinco
mais subjetividades
pensemos nas festividades
do baixo ventriloquismo
e na tecnologia do consolo
sejamos oníricos
nas manifestações almejadas
mas não no dia-a-dia
fazer poesia
não corresponde a nada
nem a sentir
nem à piada
do passarinho.

18 de junho de 2010

Tenho muitas metades
Imaginadas Assim como
Tenho muitas vontades
Tramadas em narrativas
Ainda não iniciadas

Tenho iniciativas que
Não tomei no momento
Certo e uma incerteza
Voraz que me impede
De lamentar o que perdi
Ou o que nem tive ainda

Tenho uma vida que
Queria fossem muitas
Como as de um gato
Tristonho diante da lua
Ou como a rua indefesa
Diante do tráfico de
Olhares e desejos

Tenho muitas metades
Dispersas em calamidades
E abusos de autoridade
Ou autorias e tenho minhas
Vias respiratórias con
gestionadas pelos cheiros
dos prazeres e precauções

Tenho metades
Mas não tenho razões
para suspeitar de minhas
-------------------Integridades

17 de junho de 2010

com.com

Os dias e as horas
Vagam infames
Entre games
E distritos virtuais
Não há mais inibição
Nem medo

O fingidor agora
Tem alteridades
E não há verdades
Inteiras que não tenham
Mais uma metade

A esquizofrenia em rede
Domina o solitário
Exponencialmente
E ele cria mundos
onde escreve lê pensa
de diferentes modos
Nos tornamos nossos
Próprios godos visigodos
E outros engodos mais

Não há mais privacidade
No próprio templo
O analista
Os pedagogos
O ginecologista
Os amantes
Os piercings
E até as mídias
Como vikings
Aportam em cada poro
Etéreo
--------venéreo
----------------virtual
de lado a lado

O ser humano --------- enfim
Está superpovoado

15 de junho de 2010

A tradição trai
Traduz uma luz
De tempos idos
E referidos fatos
Teatrais
E faz mais barulho
Que o entulho
Acumulado em escombros
Recém inaugurados
Mas é apenas mais um raconto
Um ponto de velhos fingidores
São dores de outras eras
São feras a espera de presas
São mesas postas
Em dias de feriado
E o embargado dos sentidos
Que constroem no dia-a-dia
A sensação de comodidade
São a verdade coroada
E nua diante da criança
São a dança dos fatos
Vencidos numa trama
Que tudo naturaliza
A monalisa sem bigodes
Os pagodes cujo imperador
Não impera
Uma quebra de contrato
Assinada de antemão
A mão na roda (do leme)
A coda dos vencidos
E vencedores
As cores de uma bandeira
São a maneira
De amaneirar-se
A catarse das entrelinhas
Às vinhas do absurdo
O mudo olhar que revela
Uma narrativa da paz
e prosperidade
uma vontade
de parecer semelhante
um gigante que não
se desgoverna
uma caverna com vultos
os cultos e cultuados
os magistrados
e suas pastas
as castas
maneiras do ser
ou não ser
uma mulher Captada
em adultério duvidoso
ou o formoso que canta
na sacada
uma espada
uma lei
A tradição
é coisa de rei
que nunca voltou
mas sempre virá
É um lá e cá infinito
é o bonito do agora
que é feio e sem nexo
só não é sexo
porque a tradição
é assexuada e traidora
e com sexo não é possível
trair
apenas atrair
mais seguidores
que virão no porvir
ou nonada.
A tradição trai
Atrai uma luz
Muito relativamente
E torna massa
Divergente de sua energia
E cria embargos
E cargos desnecessários
A tradição embora assustadora
É quem nos monitora
Desde antes de oitenta e quatro
É o entreato platônico
É o hecatômbico acaso
Do Caos
O atraso menstrual
O formal pedido
Perdido no espaço
Um passo dado em falso
Em busca de um tempo
Acabado
É um não acabar um poema
Só por monotonia
É um dia
Era uma vez
A verdade mais densa
É quem pensa
Que pensa melhor calado
Polifonicamente
É a serpente
Culpa, expiação e buracos
Nas fechaduras
A tradição mente
Mas não é diferente
de si mesma
lesma de rimas óbvias,
é aderente.

A tradição não faz nenhum sentido
Porque os sentidos
Já nascem para ser educados
traídos
atraídos
E traduzidos
Aos bocados.

13 de junho de 2010

Visita de linho
No meio da meada
A linha sai da linha - embolada...

9 de junho de 2010

Um dia
ia indo
o mundo
vinha vindo
na direção contrária
e o choque foi inevitável

Não digo que era um dia
para maus humores
ou para rumores e resmungos

Era um dia comum
aprazível e naturalizado
A praça era praça
A flor era flor
O café tinha o mesmo cheiro
do café do dia anterior

Sexo não havia
pelo menos chovendo
não Mas o mundo vinha vindo
inexorável como sempre
indelevelmente inexorável
atropelando atropelados
rasgando virgens
folhas fazendo
com que a caneta
a segura bela e dócil caneta
crescesse e se multiplicasse
em espelhos
memórias
essas histórias descoloridas

Ai notei
a vida tinha virado
um eterno mangá

7 de junho de 2010

Te queria como querem
As bolsas o seu conteúdo
Te queria tanto e como
De modo que se não fora
Que fosse dubiamente
Te queria desse jeito
Tão rompante
Que de tão infante
Me infartei
De ti

31 de maio de 2010

ME DESCULPEM - ME A MIM meus leitores de poesia!!!

Gente, é sério!!! Nunca fui anti-semita, nunca me manifestei sobre a questão do Oriente Médio do modo com vou fazer agora. Acho mesmo que este blog não é o lugar nem o espaço certo para isto, mas, tenha dó, haja paciência (sequência de palavrões censurada pelo autor)!!!! O que Israel fez, desta vez, passa dos limites do razoável!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O perfil transfigurado do justo
Quando a justiça é perfeita
As mãos atadas do poder
Divino ao acaso
O caso da criança
Que pulou –não pulou –
Da janela com a raiva do Pai
As estranhas entranhas do silêncio
Movendo-se em linha desesperada
Trinta metros até a calçada
A quietude dos dias de Pompéia
Onde estariam agora
A perna da boneca perdida?
As loucinhas de plástico?
Um ursinho de pelúcia meio zarolho que todo mundo achava feio
mas não dava pesadelos?
O que ela faria
Agora, quinze anos, depois?
Tomaria um chopp?
Venderia o corpo?
Estaria num shopping?
Prepararia seu TCC?
O enxoval?
A justiça perfeita dos homens
Ainda não foi estabelecida
Entre as divindades.

24 de maio de 2010

JORNADA NAS ESTRELAS

Indo
Onde
Inda
É vc.

20 de maio de 2010

Tudo no teu
Gosto imaginado
É pecado
É pegado
Na língua
É linguagem secreta
De pele que veste
Pele
E líquido
Que liquida atos
São fatos
Fingidos no desejo
São faca e
Beijo na mão

São a noção do non sense
São seis pence
De doces desvarios
São os rios internos
Dos infernos
Nos mamilos
São bacilos
De amor eterno

Tudo no teu gosto
Invaginado
É pecado
É rasgado na língua
No corpo sutil da noite
É quase morte
É quase vida
É a ardida
Voz
Do novamente.
Pour Eli (se – ela aceitar) e também, e porque não, à Su e Cida.


“É a vida quem me mata”
É a ata por escrever
De tantos enganos
São os planos de saúde
Glória e a história
Do seu amante
É um instante
instantâneo digital
Que recebi pelo correio
Eletrônico
(e que não abri
Com medo de vírus
E da vida)
É uma pétala caída
em desgraça de malquerer bem
É o ter que lidar com o anexo
Ao título mal escrito da mensagem
- veja ela com outro alguém -
É à margem do firewall
Um muro parado
Numa corrida contra o tempo
É um tapa de luvas de pelica
No suspeito do futebol
É um duelo ao pôr
E o estupor
De sair vencido.

18 de maio de 2010

Busco nas veias
As vaias do sangue
A cor do mangue
A gangue de depravados
Que policio
O fio onde caminho
O ninho das mazelas
As scelas nas quais desconto
O monto dos meus pecados
Os lados da minha esfera
À espera do teu aceite
O azeite dos nossos lábios
Os sábios de outra era
A fera

17 de maio de 2010

Mediu as palavras
Uma a uma
Antes de dizer
Que permaneceria em silêncio.

12 de maio de 2010

sou o que não sou
e de tanto ser
o que não sei
acabo sendo
meu próprio rei


mando em mim mesmo
e se me desobedeço
é só para provar
que ainda sou livre

10 de maio de 2010

Travessas

Atravesso
Outra vez
Atavios e atalhos
Os talhos na carne
Não cicatrizada
Por um triz.

Travessamente
Se atraem na
travessa deserta
os traços devassos
de nossas tramas.

São dramas
E são passos
As peças que espessam
Os fatos.

São espaços
Não preenchidos
Os aspectos da beleza

São a mesa

A travessa.

6 de maio de 2010

CANTATA DE BACH

Tenho o direito
De permanecer calado
Mas tenho o seu fado
A me aprisionar

Tudo o que eu disser
Poderá ser
Usado contra mim
Se me declarar

Tenho direito
A um telefonema
Mas o problema
É que não tenho
Número para discar...

5 de maio de 2010

Fabricar sua imagem
Invertida
Perversa
Antediluviana
Ou paradisíaca

Brincar com sua ausência
De más intenções
Ou com a ingenuidade
Das pequenas maldades em você

Esperar dias
Pelo seu mau humor
E depor flores nas suas intensidades

Repensar nossas inverdades
E investir cada vez
Mais na ausência de castidade

3 de maio de 2010

banco imobiliário

Tuas insanidades
Excitam minha pureza
Descrevem uma beleza
Que não me pertence
Valem exatos seis pence
De rimas e remédios
E alguns prédios
No banco imobiliário.

1 de maio de 2010

amar você

Amar você
De todas as formas estranhas
Das entranhas
Ao infinito de todas idades
Até te transformar em metades
De mim
Ou até que a morte
Venha me buscar
Dentro de você

22 de abril de 2010

Não havia nas bocas
Nada senão bocas
Bocas que outras bocas
Já tinham abocanhado
Bocas trancadas no calabouço
De si
vorazmente engalfinhadas
Bocas crescendo
Disputando
Engolindo cada pedaço
Do outro
Numa antropofagia
Desesperada
Apressada
Quase mórbida
Pareciam ventosas grudando-se
Sustentando os aventureiros
No teto do quarto
Em pouco tempo
não havia mais nada
nem braços
nem pernas
nem cores
nem nomes
apenas bocas
insaciáveis
lascivas
e o beijo.

21 de abril de 2010

UM poema PODE tornar SEU leitor UM crápula?

In
Cesto
Gatinhos
E gatinhas
Lambem-se
Mutuamente

20 de abril de 2010

Tenho andado azul
Como nos quadros de Picasso
Não sei bem o que faço
Com o fato
De ter três dimensões
Talvez se eu tivesse
Apenas uma
E nada mais
Não precisasse
Esquecer que existo
Nem disfarçar
O volume incômodo
Que tua ausência traz
Ao meu abdome

Tenho andado azul
De fome
tenho andado muito
com minha sombra
sempre calada
triste angustiada
vivendo sombria
coisas impalpáveis
e parte do meu delírio cotidiano
em busca de respostas inevitáveis
partilho com ela
o meu pão de cada dia
(embora a dose seja única)
partilhamos também
tudo o que faço e faria
sem medo de errar
de dançar na chuva
até morrer de ciúmes
por isso quando amamos
eu apago a luz

18 de abril de 2010

hoje estou assim
dono da metade do que me lembro de nós
querendo invadir a outra metade

17 de abril de 2010

Quem sabe se é cio
Ou o frio
Da existência
Que mantém apertado
o colo da menina
quem sabe se é ardor
ou dor
de vazio
que detém enrolado
o abraço da retina
quem sabe se o impreciso
No mais Giocôndito de si
é camaleônica forma
de mostrar
e ocultar
as sombras do sorrir

15 de abril de 2010

Um dia
não sei se
de propósito
ou cortesia
o disco do Chico
não tocava mais
de tão arranhado
que se fazia

Então as coisas do passado
ficaram difíceis de achar

Não é que minha memória
tinha trilha sonora
pra ajudar?!?
Desejo roubar
essa boca
com beijo e tudo
como roubo
do teu olhar
meu eu profundo
Nas vielas da carne
próximo aos pântanos
já na periferia
é que os sonhos
são mais intensos
os bêcos mais sem saída
e a forma de morrer
é a mais estranhamente linda

13 de abril de 2010

Minha pele
adota fatos
que a solidão
dos teus olhos
não compreende

Cada volta
Que minha mente dá
Ao redor dos teus mamilos
Me obriga a ser
Mais duro
Comigo mesmo

Abocanhar teu mundo
Quase resume
Ser feliz
Com uma pitada
De crueldade

Que exercício é este
Misto de susto
E apicultura
Que nos torna tão densos
E perpetráveis?

A vida do ápice
É tão curta e tatuada
De um morrer sem fim
Que ele já nasce assim
Como um gemido

17 de março de 2010

A menina veio
Como num quadro
Do holandês louco
Ficou pouco
Uns três orgasmos
Talvez
Mas fez a maçã
Parecer inocente
E destilou na semente
Cianeto em sorrisos

Outra menina veio depois
E depôs
Em juízo
Que não fora preciso
Arrombar a porta:
A natureza já estava morta...
No princípio era a carne
Sã e boa
E tava atôa
Na areia
Num decúbito
Arrebatadoramente volumoso

Depois, mamadeiras
Contas a pagar
E um ar de never more
No periquito
Ainda vou fazer
Uns poemas de saudade
Mas antes quero sentir
A nostalgia do não vivido
Para poder entender
Como é sentir falta
Do que não tive

Depois vou tomar
Um porre destes
De pra quê tanta
perna, meu deus?!?,
E me sentir envolvido

Depois, quem sabe,
Olvido esta besteira
De te sentir falta
E me dou alta
Desse teu hospício
O seu olhar
Deu tanto nó
Nas minhas tripas
Que nem as ripas
Das costelas
Escaparam sem defeito

16 de março de 2010

os poros sensatos
não soltam gemidos
mas soam em alto
e bom tom
vermelho mordida
a pele fendida
ainda salgada
confusa na carne
encruzilhada


(é tanto caminho
se encontrando
que fica difícil
ser encontrado)
deixe estar teu sorriso
deixe
que é preciso
estar
alguns sorrisos a mais
alcoolizado
deixe a pupila
da tua língua dilatada
de falsa surpresa
diante da minha

agora vai ser assim
toda cena de amor
vai ser pretexto
pra eu sair do texto
e de mim

(sinto falta
de sal nos meus olhos
já não choro mais
apenas assusto fantasmas
com hurros profundos
e descrevo por dentro
primaveras que não vi)

assim a idade
Vai amortecendo os fatos
e a morte
a Penélope dos anos
me espera entretecida
em panos
encharcados
de perfumes baratos
Céu da boca:
O infinito
Brinca de mim
mãe cadê as putas
Cadê as uvas
Onde estão os corpos na grama
As cinzas dos baseados
os acampados do jardim
Mamãe cadê os vinhos
Onde estão os ovinhos
De Páscoa e o cheiro de licor
E fumaça
Nos bigodes de papai
Mãe onde estão os dados
Viciados da vida
Onde estão as corridas
De domingo de manhã
Pelo jardim à beira mar
Meu Deus, mãe
Até as putas envelheceram
Só têm pelancas
Não têm mais ancas
Para me sustentar
Tragam-me novas putas
Mais baseados
Ergamos muralhas
De cadáveres e de
garrafas vazias
Mas não deixemos
o tempo aqui entrar
Queria ser apenas
O poeta de todas as horas
Todas incongruências
Todos os ângulos
Das tuas virilhas
Das tuas ervilhas
Nossa incivilidade

Queria ser apenas o poeta
Nada mais
Mas esqueci de dizer
A palavra mágica
Aquela que brota
Ventríloca
Longe dos lábios
Surda e sibilante
Como se vazasse
Do sexo saciado
Inchado e solitário
Do pós coito

Queria ser o poeta
Das tuas loucas horas
Das hordas
que se movimentam
Nos teus desejos
Mais devastadores

Queria ser teu poeta
Sem mais nem menos
E te domar
Entre as palavras
Como montaria
E desespero

4 de março de 2010

Esta é uma pergunta
De quando eu tinha
sete anos
Como nunca
ninguém respondeu
Continuo fazendo:
- Se todos no mundo
Têm seu par ideal
E o número de
Pessoas for ímpar
O excluído serei eu?
Enfrento os calhaus do teu sorriso
É que eu preciso sobreviver
Assim prostituído e casto
Um misto de profundidades
E queijo fundido a frio

Me intimido de uma intimidade
Faminta, aguda,
úmida por dentro e
Fora de mim te olho de balaio
Pois de soslaio ilumino minha sina

Será necessário sustentar teu
Olhar a cruzeiros
Ou ver navios é típico de cruzados
que fazem moquecas de moinhos
em cada confronto que calhar
dos olhos d´água com a roda
que mitiga tudo
o que vale uma pena?

Enfrento os calhaus do teu sorriso
E quem sabe preciso - um dia
Dizer como se poeta fora
Que tinha um cisco
no olho molhado
ou apenas que havia tropeçado
no meio do caminho...
imagino se minha carcaça velha
e putrefata por dentro aguenta
um vexame de borboletas
em disparada cardiorespiratória.

24 de setembro de 2009

processo

Não me entenda mal
Eu sou normal
A norma é que é
Idiota
A minha cota
de institucionalidade
não me permite
ser muito diferente
dos demais
mas
para seu infortúnio
hoje acordei meio
barata, meio K
e tudo o que você disser
a respeito
só poderá ser usado
contra você mesmo.

entalhe

Para que viver
um grande amor,
Este prato imundo
Onde se come sempre
A mesma comida?
Pra sonhar com outros maltrapilhos
Arrancando a tigela
Das suas mãos trêmulas?
Pra viver um êxtase
Contínuo de opiômano do mesmo
Nargilé cujo vapor
Nunca parece suficiente?
Para subir nas montanhas
E montes de Marte
Em Vênus e não poder
Respirar direito?
Para esquecer que existem
As próprias entranhas
E Prometê-las aos deuses
e corvos eternamente
em troca de um fogo que se abranda?

Não, prefiro a solidão
Que me é natural.
Prefiro o carnaval
Da cara desconhecida
Deliciando-se da ferida
Deixada pela vampira anterior
Prefiro a dor
De me sentir contente
Só pra não ter gente
De verdade me dizendo
Como é lindo não
conseguir dizer o que sente
Prefiro o vazio
De ser sugado
Até o último detalhe
E o entalhe
Na parede
Pra não perder
A conta.
Mas se tudo isso
For muito absurdo
Prefiro ficar mudo
E não fazer nada
Por que o fim
É sempre o mesmo

10 de julho de 2009

pontezinha

Vou pular da ponte
Da memória
E me estatelar
Nas incertezas
Do asfalto cru
Do caminho

Vou pular a ponte
Da memória
E me projetar
Nas incertezas
Do asfalto cru
Do caminho

Agora que pulei
E percebi o quanto
A ponte é baixinha
Me pergunto esfolado
Pra que lado ir
Pontezinha?

2 de julho de 2009

O medo
Não é da morte
em si
é mais
de descobrir-se


O medo
Não é da solidão
em si
mas da dos outros
que devora a nossa
sem piedades

O medo
Não é dos diálogos
Em si
Mas de não ter
O que dizer
depois

O medo em fim
Limite da paixão
Não é de mim
Mas de um mundo
raimundo
E sem solução


Mibielli jul2009

(Oqueéoqueé: os dentes batem, a gente chia, cicia, sussurra e geme)

28 de maio de 2009

vendo um homem

Vendo um homem charmoso
Um pouco passado
Mas embrulho pra presente

Vendo um homem tisnado
A carne crua
O peito aberto
A safena com pedágio

Vendo um homem
Quase carente
Ausente de más intenções
Querendo as boas

Vendo um homem
Completo
Em estado de novo
E outra vez
E novamente

Vendo um homem gratuito
Em parcelas módicas
Primeiro a boca
E os bigodes
Depois os moldes
E as idéias

Vendo um homem difícil
Mas se você
Não tiver todo o capital
Eu alugo.

11 de julho de 2007

tudo que podemos dizer
nao serve
porque faz sentido
entao nao fiquemos
calados
sejamos ao menos futeis

5 de março de 2007

oi gente

depois de uma breve parada neste último ano de tese, voltamos com alguns poemas de amigos (mas excelentes poetas) e alguma poesia deste irremediável poeta que sou...
Um grande abraço,
Roberto

12 de setembro de 2006

Possuir os gritos
Mais do que a vítima
Possuir o medo
Os tremores,
a ira
Beber o suor
E a adrenalina
Brindar até o romper
das taças
esparramando o tinto
além da moldura
Gosto de avançar sinais
E tropeçar em catedrais
De cartas marcadas
Gosto demais
Deste seu sorriso
Que se contradiz
E gosto por um triz
Da rima marota
E pobre
que tem a felicidade
De encontrar um poeta burguês
E descompromissado como eu
Mas o ápice mesmo
É quando casados a esmo
Vivemos felizes
Para sempre
O nutricionista chefe
De cuisine
Do canal menos
Dizia
Dia desses
Que é possível
Fazer sim
Uma colorida salada diet
Das pétalas
das flores do mal
E o Leminski
coitado
Nem ficou sabendo
Depois de tudo
Ele foi-se embora
Não vou dizer
Que foi bom pra ambos
Mas nem sempre
É bom mesmo
pra qualquer um
Alguém reclamou
Com o síndico
E este veio ver
Se havia vazamentos
Tudo estava lá
Intocado
Não havia desordem
Nem sombra
De dúvida.
Ele tinha ido embora
Mas agora ela
Deixava as torneiras
Abertas sempre
que precisava entender
a solidão
Tanto faz
Na tenda dos meus vinte e cinco anos
As bolas e os cristais
Cheiravam a sexo
Como o mundo

As poses no instantâneo
Eram advertências
mudos semáforos
Apagando e acendendo
Incensos e róseas marcas
De batom nas cuecas do tempo

Minhas mais nobres intenções
Estavam escritas
No idioma cálido
E energético das aparências
Morrer era só uma questão
De mitos

Quem tinha as melhores apostas
Simplesmente adiava o jogo
Achando ter nas mãos
O que chamamos destino

Quem não sabia o que fazer
Ou mal jogava
Simplesmente chutava
O pau da barraca
os cristais
e morria
de tanto fazer

1 de setembro de 2006

Rameira sim
Vermelha por dentro
E a sua volta
Nas pálpebras
Do verbo dilatado
rouco
Desesperado e breve

Rameira sim
E até demais
Nas costas da tua mão
Que foge ligeira
deixando pistas
Espalmadas no trilho
Branco do biquíni

Rameira sim
Da boca pra fora
De corpo adentro
Oferecida até
nos abismos
do acaso imoral
da imoralidade

Rameira sim
De cuspir os dentes
Nas meias verdades
Do sim e do não
E de voltar à carga
Nas montarias
Circunspectas
Da solidão

Rameira sim
Para por fim ao vício
De sustenir
O desejo
com os títeres
da razão

Rameira sim
De borrar
A lente do mundo
Com o baton
Dos teus versos
E avessos

Rameira assim
De ir até o fim
Ou até o mais imundo
De nossas fantasias
E de não me penetrar
Na vida sem
Com sentimento

Rameira em fim
De ser metade minha
Metade sua
Seja você quem for
Que me possua

19 de julho de 2006

mais um da nova safra

Sobeja de dentes
A carne retorna
vermelhos refrões

Anã de túnicas
A face exala
Cadência

Canhestra de mitos
A mente explora
Porões e desvãos

Aniquilada a razão
Tende a ser meritória
De espasmos


Roberto Mibielli
Do perfume da flor
Da pele
Inventa-se a raiva
O suor descabido
O gesto brusco
O esgar da boca
Oca de carinho
Pouca de desejo
Apenas sombra
Do que seria uma flor
Não fosse a flor
Da pele
Carente de sentido

POEMAS DE UM GRANDE POETA (Charles Silva)

ela estava
como de costume
ou quase

em seu lume
o batom cerâmico
implorava o salto alto
da língua

faltou boca
para tantas pegadas


-------------------------------------------

preparo tua volta
como quem
parte

quero
conhecer melhor
tuas paisagens


------------------------------------------
prefiro mariposas a borboletas
morcegos a pássaros
bruxas a fadas

seres notívagos
são pétalas improvisadas

a luz bruxuleante da lua
no seu lamento
produz vertigens

prefiro putas a virgens

_---------------------------------------------

Quem não comprou ainda o seu exemplar deste belíssimo livro do Charles "Do açúcar a pimenta" (do qual foram extraídos estes poemas) pode fazê-lo nas Livrarias Catarinense/Curitiba (respectivamente em SC/PR) ou pelo site das respectivas livrarias na internet.
Abraços,
Roberto Mibielli

3 de junho de 2006

Mais um Poema desta Maravilha de poeta

OFÉLIA RELOADED

Senhora
dona de mim,
não reparta
o cristal escarlate

iguanas se formam
em meus bolsos,

lodo no copo,
flor esgarçada
no sexo,

retira a jóia
torpe,
subverte
o vate

vela,
lâmpadas cáusticas
vertem fogos
fátuos,

descasca-lhe o frio
dorso,
incrusta um nome
às avessas

verbo,
seda luxuriante
que dilacera

o corpo inerte,
mortalha silente,

olhar os próprios olhos,
enquanto tomba
a cabeça
e desaprender a dor
num instante,

essa voluptuária
serpente
de jaspe

(Ana Maria Ramiro)

BLOG: Folhas de Girapemba
http://girapemba.blogspot.com/

http://ana.ramiro.uol.blog.com.br/

Ilha

Praia varrida
Ilha virada
Nos corais
Da tua pele
E mais fundo
Despedaço
O casco
Do meu navio
Pra desespero
Da tripulação

31 de maio de 2006

Ela era mãe
Mas contava
Pra si
As horas
Os dias
Os meses
Até anos
Em que nada
diferente
acontecia
ao seu
ser mulher

ela era a mãe
e ninguém
sabia (nem
podia imaginar)
dos desejos
e contradições
das sólidas
fantasias
que guardava
sem pilhas
no armário
do quarto

ela, a mãe
nutria por
si mesma
o desprezo
dos anos
até que
achou
numa floricultura
uma outra Rosa
quase sem espinhos
mas de perfume
devastador

inda agora
as duas mães
que tenho
(uma negra
a outra rouge)
me explicaram
que meu pai
existiu
e foi um bom
homem

Mas insuficiente

4 de maio de 2006

poema da minha amiga FRÔ

Busco essência dentro de mim
e nas coisas aprendidas.
Minhas retinas afoitas desejam,
do pinheiro plantado no natal,
algo mais que folhas secas.
Procuro aquilo que vingue,
vitorioso,
esse tédio viciado de morte,
desesperanças, costumeiro.
Persigo algo que alcance
o cheiro do vaso de especiarias
das sete ervas pra afugentar maus espíritos.
Meu pequeno vaso lírico:
uma espada de São Jorge mirrada,
pimenta malagueta, rubra, ardida,
alecrim, manjericão perfumados,
guiné ousada, espichando tentáculos,
arruda morta,
encoberta por folhas largas,
esbranquiçadas,
ladras de luz.
Minha vida se reduz
a buscar o Sol todos os dias,
lutar contra a sina arruda:
sorrir e girar
feito um girassol feliz.

Frô 19:58 14/02/2000

7 de fevereiro de 2006

POEMA TECNO

Estou muito racional
Estou muito
Estou
E
Estou muito racional
Estou muito
Estou
E
Estou muito racional
Estou muito
Estou
E
Estou muito racional
Estou muito
Estou
E
Estou muito racional
Estou muito
Estou
E
Estou muito racional
Estou muito
Estou
E
(alguém sabe como se desliga isso??)

26 de dezembro de 2005

Triste
A noite deflora
A tarde
Que arde
E se muda em tons
Que eu não saberia
Descrever
em versos

triste
a noite domina
a tarde
que faz alarde
do seu fim róseo
como se soubesse
que ali começa
o momento
dos devassos

triste
a noite desatina
a tarde
que encarde
o céu de cores
para que se saiba
que ali se esvai
o virgem sangue
dos travessos

triste
a noite omite
a tarde
que entende
na escuridão
interna o sentido
de ser o outro
nos próprios avêssos

16 de dezembro de 2005

A correria dos dias
Me odeia nas veias da cidade
A correria da louca
Da lua me invadia
Nos becos da mocidade
A correria dos beijos
Me adia
nas despensas da insanidade
a correria das vias
me envia
nas cordas da tua vontade
a correria das correrias
que me incendeia
te vadia
no cheiro de nossa tarde

30 de novembro de 2005

como sempre, continuo estudando o anti-clímax, acho fazer poesia desses pequenos momentos ótimo e bizarro..

Estou invisível
Me precipito meio chuva
Meio ácido
No plácido domingo
Do teu maio
Irônica mente
Incendeio tua carne
Salgada de tantos mares
E levo teu dedo
A cogitar teu segredo
Minusculamente guardado
Há muita gente ao redor
E nenhum particípio presente
Ninguém pressente
Tua carne pedindo
Quase implorando
Um pouco de ternura
E brusquidão
Você mesma
Já não está mais ali
Abandonou o corpo
Ao seu próprio delírio
E flutua no mar
deixando-se embalar
pelas ondas cálidas
que te lambem inteira
aí uma sombra matreira
te diz num tom urgente
vai um cachorro quente?
Havia um garfo transando uma faca
bem na minha frente.

Não era o vinho.

Havia um garfo
quatro pernas abertas
dentro do prato
recebendo uma faca
bem na minha frente.
Agora já é quase meia noite
e a solidão, direito de quem fica,
já não me acompanha mais
pelos caminhos do sonhar acordado
Agora não mais prendo
o meu sexo ao teu reflexo
nem aprendo lúdico
o lúbrico lúgubre que sou
Agora já existe quem aceite
contrariando o poeta
falar de si pelos cotovelos
enquanto a boca permanece selada
Agora qualquer festa é sina
qualquer recanto um corpo
onde se pode cuspir meias verdades
e retornar embebedado
como a um beco sem outra saída
a não ser entrar.
Agora, ou antes mesmo disso,
disse, eu posso estar enganado
mas também não importa mais.

12 de novembro de 2005

Tenho a cara lambuzada de sexo
Chove aqui fora
Tudo está tão úmido
E lindo
As flores agora
Têm cheiro de flor
Um cheiro quente
E morno que parece
Excitar a rua
Deixando transparecer
Pessoas que brilham
Entre gotas
Perfumes
Alegria de roupas coladas
como se todos fizessem
parte do coito universal

pra contrabalançar

Tenho medo das coisas
Que não fingi
Tenho medo dos orgasmos
que tive
das inconseqüentes
carnes de verão
que misturei
em minha própria carne
depois esqueci
secando ao sol

tenho medo do sal
mumificante do mar
mais salgado que as lágrimas
que jamais derramarei

tenho medo dos sentidos
traiçoeiros
e das impressões
digitais
cuja carne metafórica
se esvai de tela
em tela
de corpos virtuosos
em virtudes efêmeras
mas aconchegantes

tenho medo das amantes
oh meu deus
como tenho medo delas
que amam efetivamente
tudo que em mim
é tão fingido e agreste
ou tão potente e distante

tenho medo das pequenas mortes
dos fortes sonhos de divindade
pois temo o mal de deus
usando meus medos
em mim
contra mim

eu queria ser mil
mas no fundo sou nenhum
incompleto
inacabado
construção de medos
e pavores aguerridos
de cujo fingimento
se diz identidade

romanticóides

Um corpo pode ter
muitas sombras castanhas
Pode ter entranhas
E estranhas
Fendas por onde entra
E sai
Uma infinidade de coisas

Um corpo pode ser
concretamente
De bombeiros
De fuzileiros
Ou um fuzilado a mais

Pode ser uma flor desabotoando
Ou a morada de divindades
Menos recentes

Pode ter indecentes ângulos
Ou pertencer a decentes triângulos
Con sentidos

Tudo é permitido ao corpo
São
Em mentes imaginativas

Um corpo pode ter mil sombras
Acastanhadas
Não castas
Pois há sombras por dentro
e por fora

só às sombras não é permitido
O pecado da omissão
Aliás
Também é proibida
Que a sombra seja ingênua
Ou abençoada

Um corpo pode ser ateu
Ou apenas teu

Se você quiser

1 de novembro de 2005

Que se danem as Marílias que beijei
Eu não disse que seria sempre assim.
Agora a melodia é outra
e o baile impuro das horas está no meu auge
Urge que me deixe inflamar novamente
até que a canção se esgote
ou até que me volte o primeiro amor
Todo o tempo que me resta
já não presta
Vigia meus passos
destrói minhas lembranças
Há coisas perdidas
coisas achadas
que não tenho onde guardar
Tenho que ler o Drummond
de novo
E pensar na finitude dos dias
de Jorge Luis Borges
Tenho que freqüentar os bordéis
da Paris cem anos antes
de ter nascido
Tenho que encontrar
para alguém
o tempo que perdeu
Tenho que viver meus vícios
E até coisas banais
Como entender o sentido
Da vida
tenho que fazer escondido
Pois o tempo que me resta
condena desperdícios
Me sinto hoje como ontem
me absinto

Cavalgo teu volume inerte
descolorindo ritos
desinventando a dor

é verdade
a natureza morta emoldura-se rapidamente
Frio
vergonha
lucidez

Tardes sem palavras
versus idôneos:


volta-se no tempo com muita freqüência

16 de outubro de 2005

POESIA

GENTE, ESTAMOS postando poemas de amigos (as) poetas, textos sobre o referendo, mas a nossa produção também está presente...
Para achá-la é só clicar nos meses anteriores e ela aparecerá.
Abreijos
Roberto Mibielli
p.s. Não se esqueçam de acessar os links, visitando as páginas originais onde nossos amigos poetas publicam sua poesia, OK?

10 de outubro de 2005

mais uma contribuição ao referendo

Amigos de parlenda,
Descobri esta semana que nem tudo está perdido!!! (Para aqueles que se julgam heróis e se julgam capazes de se defender da violência do crime organizado, com uma arma de fogo, sem treinamento; ou que, negaceando os movimentos populares e as lutas coletivas devidamente organizadas, acham-se capazes e acreditam na falácia de resistir a um golpe de estado, ou a um governo truculento, apenas com um revólver calibre 38 nas mãos)
NeM tudo está perdido!!! Podem vir a proibir as armas de fogo, mas não estão proibidos os acessórios (nem os atos) heróicos!!! O laço da mulher maravilha, por exemplo, está em liquidação pela semana da criança (só não achei o avião invisível, mas só depois me lembrei que era invisível!!!)! A capa do super-homem e a roupa com o S no peito também podem ser encontrados por modestos R$20,00, se preferir algo mais atual opte pela roupa e máscara do aranha ( que além de ter sido refilmado recentemente, não tem o incômodo da capa, amplamente desrecomendada pela costureira da família Incrível). A tanga do Tarzan tá fora de moda, mas achei uma fantasia de Chita... Em compensação, a máscara e o cinto de utilidades do Batman, um dos mais procurados, corre o risco de sumir das prateleiras, tão logo o referendo tenha terminado e o SIM tenha vencido.
Apresse-se cidadão de bem, garanta já o seu direito à defesa individual heróica e infalível, compre já o seu kit “heróis” completo e ganhe de brinde inteiramente grátis, de graça, a assinatura anual das revistinhas do heróis Marbell.
Não é atoa que o referendo ocorrerá ainda em outubro (pra dar tempo de pegar as liquidações de pós semana da criança...)...
Roberto

6 de outubro de 2005

MINHA CONTRIBUIÇÃO PARA O REFERENDO SOBRA A VENDA E PORTE DE ARMAS...

Diálogo:
- Queremos ter direitos. Queremos que este seja um país democrático onde a proibição do consumo (compra e venda) de armas seja absurda, um atentado à democracia.
- Então tá, já que estamos aqui pra negociar, vamos fazer uma concessão, vamos fazer uns ajustes na lei... Vamos permitir a compra de armas, mas proibir e prender quem portar as munições...
- Assim não dá, assim vcs acabam com o direito constitucional. Se o cidadão compra a arma, o pacote tem que ser completo... Onde já se viu arma sem munição??! Vcs têm que liberar a compra de munição também, isso é fascismo, o estado quer tudo pra si... vão criar um comércio paralelo, a máfia da munição da lei seca...
- Ta Bom! A gente libera a munição! Mas essa vai ser controlada, a compra vai ser feita com identidade, CPF e tudo o mais. As balas serão numeradas, virão com código de barras e serão recenseadas pelo fisco no final do ano...
- Ah, é só dar uma brechinha que vcs querem o braço inteiro...São unsburocratas de m... a gente quer liberdade, chega de controle do estado, isso é no mínimo invasão de privacidade!!! Não!!! De jeito nenhum nós vamos aceitar isso!!! Queremos liberdade pra compra munição sem o controle do governo...no mínimo pensaram em tabelar o preço também, né? Típico!!! Afinal isso é, ou não é, um país capitalista e moderno? Abaixo as restrições!!! Porcos nazistas!!!
- Ok!! Chega de gritaria, afinal somos democratas, estamos aqui pranegociar... Vamos liberar a compra de munição, mas quem disparar um tiro que seja, vai ter que se explicar pra PF, pra previdência, pro fisco...
- Ah, já vi que vcs estão enrolando, governo de ladrões, corja de corruptos, no mínimo tão pensando só nos impostos... O cidadão pode comprar, mas não pode dar nem um tirinho?? Os artistas da Globo pagaram vcs pra isso, não foi?
-Olha só, a gente tá cansado, já são cinco horas de reunião, sem muitos resultados positivos, vamos fazer o seguinte: O Estado se compromete a não controlar a munição, mas quem for pego atirando em alguém, ou mesmo ameaçando alguém, com uma arma, vai pra cadeia!!! Crime inafiançável!!! Pena eterna!!
- Tá, isso é quase razoável, mas e as crianças?? Elas não podem ficar presas eternamente porque fizeram uma brincadeira, com um amiguinho de escola, ou de rua... não podem ser presas por isso, seria uma absurdo passar a vida inteira preso por isso (sem contar a superlotação dos presídios)...
- A gente responsabiliza os pais...
- Mas e o pai, tá lá no trabalho, vai saber o que anda na cabeça destes moleques???!! Isso não é justo!!! Fora outras questões que vcs nem mencionaram, tem a defesa da honra, tem a defesa da propriedade!! Tem a defesa da tradição!! Tem a defesa da família, da religião!!! Um homem tem que poder se defender...!!!
- Mas aí, vcs estão exagerando!!! Daqui a pouco vão querer que a gente libere o uso indiscriminado de armas e munições... Vai se poder atirar em qualquer um a qualquer hora!!!!
- Ah, a gente sabia!!! Vcs não estão dispostos ao debate!! Suas idéias não combinam com as nossas, esse debate é inútil!!! Onde já se viu comprar uma arma, NÃO PODER USAR, e ainda ter que assumir responsabilidades... Antidemocratas, fascistóides!!! VCS NÃO QUEREM QUE TENHAMOS MAIS O DIREITO DE USAR EM QUEM BEM ENTENDERMOS NOSSAS ARMAS??? Isso é mexer com a propriedade privada!! É mexer no sagrado direito capitalista ao livre arbítrio!!!!! São mesmo uns safados comunistas antidemocratas... Mexer com direitos essenciais do cidadão!!! Oras!!! Isso ta virando uma ditadura...Bala neles!!!

Em 05/10/2005 Roberto Mibielli

30 de setembro de 2005

poema em prosa...

todo contratempo dos corpos rolando é o contentamento do clima rolando é o comparecimento do som dançando na cabeça da moças da cantiga de roda rolando na roda das saias que entram e saem do campo de vista da cabeça do poeta que entra e sai das saias das moças que brincam de inocentes moças que entram e saem de si em pensamentos sonoros que rolam no clima do som que rola na cabeça dos corpos que rolam em contratempo comparecendo na cabeça do poeta que nem sabe se é ele mesmo que ri e desata a cantar o som que move a roda dos corpos inocentes que entram e saem das saias contentes que giram os olhos do poeta que olha de si para si nas brincadeiras inocentes dos corpos que rolam em rodas e sons que gemem em contratempo das moças que fazem girar seu poeta imaginário que finge que sonha que é dor a dor que deveras gira no clima que pinta nas rodas de corpos ensandecidos pelo ritmo das saias que saem e entram dos corpos que rolam na mente do poeta envolvido em meninas contentes que cantam nos corpos poemas ainda não escritos ou por escrever

21 de setembro de 2005

Essa eu tirei da comunidade da Frô no orkut (poesias sem livro) e é um primor de poesia dessa mulher mágica!

FEMINISMO
(24/5/2005 06:09)
quem passou a vida
lutando contra a opressão
e a exclusão social,
aos quarenta sonha apenas com:
um marido burguês
conhecedor de bons vinhos
um país verdadeiramente liberal
uma plástica nos seios
uma trepada fenomenal.

(FRÔ, 24/05/2005)

pARABÉNS MINHA IRREGULAR POETIZA MÁGICA, PELO SEU jABUTI!!!

19 de setembro de 2005

Poema dessa que me acolheu (e que eu nem sabia que poetava) mas que me surpreendeu lindamente (no seu blog, em francês, recheado de licença poética)

le redoutable dans l’amour
est son caractère de bouteille
jetée à la mer
qu’on ne sait jamais
si elle revient
si on aura une réponse
ou si ça s’égare dans les vagues
Douce et inconnue


(By Maria Maroca, link para o blog dela nesta página)
Parabéns Maroca (pelo que creio ser sua estréia, se não for, me perdoe a ignorância)

mais um desta que é hoje uma das minhas poetas prediletas. GENTE, a poesia dela é do c... (muito boa!!)

De
quatro,
meu
perfil
é mais
bonito,
obra
de arte,
puro
deleite
para
tua
(glande)
angular

( By Ana Maria Ramiro - link p/ blog dela nesta página)

E esses são desse poeta verdadeiramente insalubre, lúbrico, por vezes (nem toda poesia dele é erótica)lindamente pornográfico que é o Charles...

se fosse príncipe
minha história seria bem simples
da janela dos teus lábios
veria o mundo
e cada segundo
seria doce
se príncipe fosse

___________________________________________________________

a fome inventa
sabores

o corpo
é um bom cardápio

___________________________________________________________



sede de taça
fome de vidro
com quantos goles
se faz um sentido?


(by Charles Silva)

Esse é da excelente poetiza e amiga ANA MARIA RAMIRO (Para os meus quarenta), mulher de fibra e de poesia com sabor, cor e cheiro inconfundíveis...

Ana Maria: Beto, queridoOlha só o que ganhei de presente:http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4627604Te quero lá, tá!?
E a tua poesia de encomenda para entrar nos "...enta":

ESPELHO

Desde que
te olhei
(meu olho)

Desde que
sorri
(teu riso)

Não pensei
mais nada
que não fosse
olho e
riso

Desde que
toquei
(teu toque)

Desde que
senti
o gosto

Tive certeza
de (re)conhecê-lo
meu duplo

Passando a amá-lo
como a mim
mesma

E quando te afastastes,
foi teu pranto
que chorei,
por também
me afastar
indefesa.


Bjs pra ti e bom feriado!Aninha

17 de setembro de 2005

aviso aos navegantes

De madrugada o mar está grogue
As ondas altas se esparramam na praia
O reflexo da lua
Jogado de lado
Encalha na areia


Minha sombra sóbria
Tenta se equilibrar nas pedras bambas
com as quais caminho


Tento dizer um clichê honesto
E não consigo
Basta-me então pensar:



será que te amo?


____________________________________________________________


ternuras concomitantes
conveses intermitentes
ao sabor do vento enfunado
a velas cheias de si
esquecem-se da prevenção
o sopro que já foi daí
de lá
de qualquer canto
roçaga,
esgarça,
arregaça
preenche a flor do cio
abrevia toda distância
distancia qualquer sentido

navegar é preciso

__________________________________________________________

16 de setembro de 2005

dois da fase erótica (redespertada pelo duelo/dueto Aninha X Charles)

Gozo do gozo das horas
No agora
dos jatos de impaciência
na inclemência
dos golpes do destino
desatino.

__________________________________________________________

Me desgoverno
inferno no corpo desnorteado
cavalgo em ira e mel
do céu da tua boca
ao teu lado mais profano

Me dano
me atinjo no âmago
e amargo docemente
o sabor do teu ser suor.

10 de setembro de 2005

ah...sei lá!

minha imagem
hoje
não concordou comigo

acordei sóbrio
me olhando bêbado
no espelho do banheiro

então sorri
ou gargalhei
não sei

mas a imagem dramática
apenas piscava estarrecida

havia vida acumulada
nas olheiras
que eu sabia que não tinha

havia um ter
que eu nunca tivera
e uma cicatriz
mal dissimulada
no canto do olho
que me tornava
completo desconhecido

me cumprimentei
cordialmente
pelo dia recém surgido
e fui dormir aturdido

_______________________________________________________

todos os dias
quando saio do meu caminho
encontro uma raposa
e a raposa me diz
engano seu
pois já não há mais raposas

então pensamos coletivamente
eu e meus botões
deve ser a verdade
porque raposas não falam

como é tediosa minha anormalidade


___________________________________________________________

Poema de uma noite inteira


Passo a noite como
um ferro à carvão
do tempo de minha avó

espanto mosquitos
com os gestos
de um louco sóbrio

as vezes me imagino dançando
em boates estranhas
com pessoas ímpares
que não conheço

bebo meu próprio suor
esperando sentir outro gosto

espero os vizinhos dormirem
para sentir
a familiaridade de seus roncos

o rosto que vejo no espelho
emoldura olheiras
velhas conhecidas
amassadas de outros tempos

passo a noite com(o)
um ferro antigo
engomo com chicletes...
bolas!
__________________________________
AGORA QUE FIZ 40...

testamento:

Aos amigos deixo a decisão do que fazer com o que não escrevi.
Tudo aquilo que neguei existe em mim; de forma negativa, mas existe.
(subentendam-me:tudo aquilo que eu não disse, não disse mesmo.
O que não neguei ainda, falta negar; é este, uma parte do meu legado.
(As negonas - que negam - não são obra minha).
Aos amigos ímpares, ofereço pares e vice-e-versa.
Mas os pares oferecidos deverão ser geometricamente compatíveis.
Vice-e-versa os complementará em tudo que é necessário ao trio.
nas noites quentes de verão, alguém deverá se lembrar de mim com saudades.
Façam-no calar-se a mordidas pelo-a-mor-de-deus.
O mais é só cerveja,
cerveja e umas fodinhas...

6 de setembro de 2005

rapidinha...

Não me deixo moer
Única e simplesmente
Mesmo assim sou moído
Eu sei

Mas também sei
Que as mós
Também viram farinha
Aos poucos
com o tempo.

5 de setembro de 2005

Menina, tudo o que vc sabe me completa... eu realmente me sinto margem e como margem espero que muito líquido ainda passe entre nós...(

Não me deixe no escuro
eu que sempre fui duro
escuro muro
de más intenções
e fantasias com bêcos
mal iluminados
cheirando a urina
e sexo antigo.

(Sim a minha memória
é capciosa e só
pensa nas coisas
que têm cheiro e gosto
de âmago e semente)

Não não me deixe sozinho
pregado em minhas
próprias lembranças
lúgubres de tão lúbricas
lúbricas de tão lembradas

Não me deixe falando à sina
no idioma da solidão
posto que é língua
tudo o que é composto
e é desgosto
tudo o que é abandono

não não me deixe incompleto
apenas meu lado de nossas
rinhas e (des)afetos
apenas minhas unhas
sem leito
apenas tuas trilhas
sem autoria
na minha pele

É tarde?

1995

Há uma voz no cerne da montanha
que não é de ninguém
uma voz louca
que transpõe abismos
aos saltos
caçoando da vida.

1988

FERIADO


Cantou um galo
mexeu um pé
e sorriu pra enxada
e pá
depois cobriu o sol
com a cortina
murmurou
“feriado”
virou o lado
e dormiu.

2 de setembro de 2005

este texto diz respeito à foto o mergulho...

E agora? E agora José, que é roberto (miúdo e insignificante assim com essa minúscula ridícula a começar-lhe o nome) e que faz quarenta? Cortar o cabelo, tirar a barba? Pular nu da ponte? Transar três dias seguidos e ressuscitar de todas as pequenas mortes no terceiro dia? Comprar um carro novo, uma geladeira usada? Uma escada de serviço? Quem sabe me visto de drag? Deixo o cabelo crescer (agora entre hoje 23:30 e meia noite) com uma peruca loira e saio no cavalo baio imitando lady Godiva? Será que ainda serei salvo? Vou passar três vezes diante da igreja e do pastor pra que ele me liberte de meus demônios pessoais? Eu que já plantei árvores, fiz filhos, escrevi livros que não publiquei, o que faço agora? Como me portar diante do halo mágico de energia que se abrirá diante de mim, tal qual portal dimensional, e me libertará dos anos trinta me atirando com a força de duzentos garanhões nos quarenta? Me corto os pulsos e ligo pro CVV? Corto, no escuro, o fio do telefone sem fio, infinitas vezes até me convencer de que ele realmente não está lá? Onde foi que eu errei para que os quarenta ladrões me surpreendessem assim, de repente, na calada da noite quando qualquer pessoa honesta já estaria dormindo? Será que fui negligente com meus pais, com meus filhos, com o capital simbólico que minha profissão exige? Quem foi que deu pra reclamar das juntas quando ainda nem era preciso? Eu ainda sou poeta? Quando foi que deixei de ser aquilo que ainda nem fui? Será que fumei um baseado e estou divagando sobre a divagação? Ou divagar sobre a divagação é algo tão vago que não permite nem mesmo a mais vaga divagação a respeito? Tudo é muito claro e muito escuro... Meu deus estou no túnel? Eu vou nascer? Eu vou nascer??!?? Eu vou nascer! Eu vou!!!
Roberto Mibielli

1 de setembro de 2005


o mergulho Posted by Picasa

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closes

31 de agosto de 2005

mais algumas

Trabalho no teu corpo
com rabiscos
e riscos de fúria
uterina leveza
desta flor
em despetalamento

Trabalho no teu corpo
com o delírio da unha
com a língua em cunha
com paixão e desfalecimento

_________________________________

teu corpo diz coisas
de um jeito
que as palavras
não têm direito
de dizer.

___________________________________

Acima do bem e do mal
O Rio de Janeiro
Deságua em Fevereiro

É carnaval...

alguma poesia...

Espaço incógnito
Nomes de praças e ruas
Até o umbigo

Depois rota única
O campo

(fondue -2005)
______________________________________




Função/ões da linguagem
Necessidade de dizer coisas:
Os navios não encalham
na lua cheia

não é a maré
(nem a visibilidade que melhora)
é a distância
que é grande mesmo

_________________________________


Pêlos e mergulho
Nunca voltar à tona
Nunca morrer de verdade

(fondue - 2005)
_________________________________


Anamorfose


Condições sine qua non
Para poder estar aqui com você

Não estar cá com os meus botões
A matutar na morte do Bezerra;

Não ter ido ao enterro, nem ao velório
Porque ele pode ter morrido tarde
As festas fúnebres costumam
Entrar noite adentro

Não aceitar um provável pedido
da possível mãe pra conduzir
o féretro e as cerimônias que
podem estar acontecendo agora;

Não ter nunca sequer conhecido
o Bezerra, nem os seus,
pois teria remorsos
e isso não combinaria
com os sons da tua pele;

Ter podido retirar o dinheiro
No caixa eletrônico
Pra pagar o motel e a bebida cara
Se o Bezerra tivesse
Chegado no banco pra depositar
antes do infarto


____________________________________



Quando nos vemos
Repartimos tudo
Inclusive as horas

Por isso o tempo voa


________________________________________


Vi uma boneca de plástico
Jogada fora,
num rio de uma favela em São Gonçalo
Perfeito bebê boneca atirada
Abandonada
Boiando no dia seguinte
Ao dia das crianças
Num lugar onde quase ninguém
Ganhou nada

Estaria morta?

(manequins - 2004)
_______________________________________________



Difícil não falar do plástico
Nos corpos ali derramados
Entre a valeta a loja
E as marcas da violência
Já quase marrons no muro

O vestido da noiva rasgado
Em diversos tons de lama

O dia a dia continua
E juntar trapos
Não mais surpreende
Em época de enchente

(manequins -2004)



__________________________________________


Nutrir o caos com leite do peito
Até aos seis meses
É possível para ambos os sexos
E propõe um futuro
Absolutamente sem garantias


(maternidades - 2005)